O Cartão BPI Cash é um pré-pago das redes Visa e Multibanco que o Banco BPI vende sobretudo como cartão de mesada: pode ser atribuído a um terceiro com idade superior a 13 anos e não dá acesso à conta de depósitos à ordem do titular. Custa 9,50€ a emitir e 11€ por ano a partir do segundo ano. O nosso veredito numa frase: cumpre bem a função de dar autonomia controlada a um adolescente, mas cobra por tudo e só está ao alcance de quem já é cliente do BPI.

O que é um cartão pré-pago (e o que este faz)

Um cartão pré-pago funciona ao contrário de um cartão de crédito. Em vez de o banco adiantar dinheiro que se paga depois, é o utilizador que põe primeiro o dinheiro no cartão e só depois o gasta. O saldo carregado é o teto absoluto: quando acaba, o cartão deixa simplesmente de pagar. Não há descoberto, não há prestação no fim do mês, não há dívida a acumular.

Essa mecânica tem consequências que atravessam todo o resto desta análise. Como não há crédito concedido, não existe taxa de juro, nem limite de crédito, nem período de carência — e não é o BPI que se esquece de os publicar: é o produto que não os tem. Pela mesma razão, não há análise de risco de crédito nem exigência de rendimento mínimo.

Dentro dessa família, o BPI Cash tem um posicionamento estreito e claro. O banco descreve-o como um cartão recarregável que só permite utilizações até ao saldo previamente carregado e que não dá acesso à conta à ordem do titular. E acrescenta o argumento que o distingue no mercado português: a possibilidade de atribuição do cartão a terceiros com idade superior a 13 anos. Ou seja, um pai ou uma mãe, cliente do BPI, carrega o cartão e entrega-o ao filho adolescente — que pode pagar em lojas e na internet, mas nunca chega à conta da família.

É por aí que se percebe o produto. Não é um cartão para quem está fora do sistema bancário, porque exige uma conta à ordem no BPI. É um cartão de controlo: existe para separar uma verba do resto do dinheiro da casa e para a entregar a alguém sem lhe dar mais nada.

Custos reais

É aqui que um pré-pago se ganha ou se perde. Sem juros para comparar, a única coisa que distingue um bom pré-pago de um mau é a tabela de comissões — e a do BPI Cash é longa. Os valores abaixo constam do preçário de cartões do Banco BPI em vigor desde 21 de maio de 2026.

CustoValor
Comissão de emissão (uma só vez)9,50€
Comissão de disponibilização (anuidade)11€ por ano, não aplicada no 1.º ano
Comissão mensalNão existe: a anuidade é cobrada anualmente
CarregamentoSem comissão prevista no preçário (mínimo de 10€)
Levantamento em PortugalSem comissão prevista no preçário
Levantamento no restante EEE (euros, coroas suecas, leus romenos)1€
Levantamento no resto do mundo2,50€ + 0,33% (mín. 0,75€) + 2,70%
Compras em POS no EEE (euros, coroas suecas, leus romenos)Sem comissão
Compras no resto do mundo2,70%
Substituição de cartão em mau estado, perdido ou roubado7,50€
Emissão de novo PIN2,50€
Recuperação de saldo3€, isenta nos pedidos de reembolso feitos até um ano após o termo do contrato
Manutenção de saldo expirado10€ por ano sobre o saldo que fique no cartão depois do cancelamento
Imposto do Selo4% sobre as comissões
JurosNão aplicável: o cartão não concede crédito

Traduzido em dinheiro real: o primeiro ano custa os 9,50€ da emissão, que com os 4% de Imposto do Selo dão 9,88€. Cada ano seguinte custa os 11€ da comissão de disponibilização, ou 11,44€ com imposto. Três anos de cartão, sem nunca sair de Portugal e sem perder o cartão, ficam em 31,50€ antes de imposto. Não é uma fortuna, mas é um custo fixo num produto que não devolve nada — não tem cashback nem programa de pontos ou de recompensas.

Fora do EEE, os números pioram depressa. Levantar o equivalente a 200€ paga 2,50€ fixos, mais 0,75€ (o mínimo, porque 0,33% de 200€ ficaria abaixo dele) e ainda 2,70% de conversão, isto é, 5,40€: 8,65€ ao todo, cerca de 4,3% do valor levantado, antes de Imposto do Selo. Uma compra de 500€ fora do EEE paga 13,50€. Este não é um cartão de viagem para fora da Europa.

Há ainda uma opacidade que merece nota: a isenção nas compras cobre apenas três moedas do Espaço Económico Europeu — o euro, a coroa sueca e o leu romeno. Quem pague em zlótis, coroas dinamarquesas ou florins húngaros deve confirmar no balcão em que escalão cai, porque o preçário distingue essas três moedas de um genérico «resto do mundo» a 2,70% e não esclarece o intervalo. E convém reter as duas comissões mais desagradáveis da tabela: recuperar o próprio saldo pode custar 3€ e o dinheiro esquecido no cartão depois do cancelamento paga 10€ por ano. Um saldo pequeno deixado para trás desaparece sozinho.

Carregamento e limites

Pôr dinheiro no cartão faz-se por dois caminhos com velocidades muito diferentes. Pelo BPI Net, pela BPI App, ao balcão ou num Centro BPI Premier, o carregamento é imediato. Pela via alternativa — pagamento de serviços em qualquer caixa multibanco — o dinheiro só chega ao cartão 24 a 48 horas úteis depois. A diferença é prática: se o filho ficar sem saldo num sábado à noite, o carregamento por multibanco não resolve nada, e a aplicação do banco passa a ser o único caminho útil.

Os limites são apertados e vale a pena conhecê-los antes de aderir. O carregamento mínimo é de 10€. O máximo é de 1.000€ por carregamento e por dia. E existe um teto anual de 5.000€ por ano e por cliente que soma todos os cartões pré-pagos do mesmo cliente.

Esse último limite é o que mais surpreende quem só olha para a mensalidade. Cinco mil euros por ano dão pouco mais de 415€ por mês — suficiente para uma mesada, curto para tudo o resto. E como o teto é por cliente e não por cartão, uma família com dois filhos e dois cartões BPI Cash reparte os mesmos 5.000€ pelos dois. Quem contava usar o pré-pago como conta de despesas domésticas, ou dar cartões a vários dependentes, bate no limite antes do fim do ano.

Estes tetos são também uma proteção: um cartão que nunca recebe mais de 1.000€ por dia tem o prejuízo máximo limitado à partida, em caso de perda ou de uso indevido. Em produtos entregues a menores, isso conta.

O que não tem — e porque isso é o ponto

O BPI Cash não tem taxa de juro, não tem TAN nem TAEG, não tem limite de crédito e não tem período de carência. Repetimos que isto não é uma lacuna de informação: é a definição do produto. Não se pode pagar juros por dinheiro que já era nosso antes de ser gasto. Quem procure um cartão para pagar a prestações, este não serve — e não serve por construção, não por falta de condições.

Da mesma forma, não há análise de risco de crédito, não há exigência de rendimento mínimo e não é pedido comprovativo de rendimentos. É esta a maior vantagem de qualquer pré-pago: o banco não avalia a capacidade de pagar porque não há nada a pagar depois. Um jovem sem rendimentos, alguém com incidentes registados no seu histórico de crédito, ou quem simplesmente não quer contrair dívida nenhuma, entra por esta porta quando a do cartão de crédito estaria fechada.

A contrapartida é honesta e tem de ser dita: um pré-pago não constrói histórico de crédito. Não há financiamento concedido, logo não há comportamento de pagamento para reportar. Quem esteja a usar um cartão como degrau para conseguir mais tarde um crédito automóvel ou um crédito à habitação não ganha absolutamente nada com este produto. Para esse objetivo, um pré-pago é tempo perdido.

Faltam-lhe ainda os extras: não tem cashback, não tem programa de pontos ou de recompensas e não dá acesso a salas de espera em aeroportos. Sobre coberturas de seguro, contactless, cartão virtual, MB WAY, Apple Pay ou Google Pay, o BPI não publica informação na página do produto nem no preçário — quem dependa de alguma delas tem de a confirmar antes de aderir, e esse silêncio é, em si mesmo, um ponto fraco num cartão pensado para adolescentes.

Segurança e proteção do saldo

Este ponto costuma passar despercebido e, num cartão sem juros, é o principal risco a avaliar. O BPI Cash é comercializado pelo Banco BPI enquanto agente em Portugal da Global Payments MoneyToPay, EDE, S.L., uma instituição de moeda eletrónica espanhola supervisionada pelo Banco de Espanha. Quem emite de facto o cartão, portanto, não é o banco português onde o cliente tem a conta.

A consequência é jurídica e vale a pena entender: o saldo de um cartão pré-pago é moeda eletrónica, e não um depósito bancário. Não rende juros e não está coberto pelo Fundo de Garantia de Depósitos, que protege depósitos e não saldos de moeda eletrónica. Em contrapartida, o regime europeu obriga as instituições de moeda eletrónica a manter os fundos dos clientes segregados do seu próprio património. A página do produto não detalha o mecanismo concreto de salvaguarda, e essa é uma pergunta legítima a fazer ao balcão antes de carregar valores altos.

No dia a dia, a proteção real é estrutural: o portador não tem acesso à conta de depósitos à ordem do titular, pelo que uma fraude nunca ultrapassa o saldo carregado. As compras online estão protegidas por autenticação 3D Secure. Se o cartão se perder ou for roubado, a substituição custa 7,50€ e um novo PIN custa 2,50€.

Requisitos

As condições de acesso são pouco exigentes no que toca ao perfil financeiro e muito exigentes no que toca à relação com o banco. Não é preciso provar rendimentos, mas é preciso já ser cliente.

RequisitoCondição
Conta à ordemSer titular de uma conta de depósitos à ordem no Banco BPI
Idade do portadorPode ser atribuído a terceiros com idade superior a 13 anos
Rendimento mínimoNão é exigido
Comprovativo de rendimentosNão é pedido
Análise de risco de créditoNão existe, por não haver crédito concedido
Canais de adesãoBPI Net, BPI App, balcões BPI e Centros BPI Premier
RedesVisa e Multibanco, aceite em todo o mundo

A exigência de conta à ordem no BPI é a limitação mais séria deste cartão. O pré-pago é, tipicamente, o produto que serve quem tem pouca relação bancária — e este só serve quem já tem uma relação estabelecida com um banco em concreto.

Para quem vale a pena (e para quem não)

Vale a pena para o pai ou a mãe, cliente do BPI, com um filho entre os 14 e os 17 anos. É o perfil para que o produto foi desenhado e onde funciona bem. O adolescente recebe um cartão Visa que paga em lojas e na internet, aprende a gerir uma verba fechada, e não tem como chegar ao dinheiro da conta da família. O adulto carrega pela aplicação em segundos e vê o extrato. Por 11€ por ano, é uma solução simples para um problema real — desde que a família aceite que o teto conjunto de 5.000€ anuais chegue para todos os cartões que venha a pedir.

Vale a pena para quem quer travar o próprio consumo ou não pode ter crédito. Quem tenha incidentes no registo de crédito, quem esteja a sair de um período de sobre-endividamento, ou quem simplesmente decida não voltar a dever dinheiro a um banco, encontra aqui um cartão que não julga nem pede rendimento nenhum. Serve também como cartão de compras online separado da conta principal, com o saldo a funcionar como limite de exposição. A condição continua a ser a mesma: já ter conta no BPI.

Não vale a pena para quem viaja para fora da Europa nem para quem quer construir historial bancário. Uma compra fora do EEE paga 2,70% e um levantamento pode ultrapassar os 4% do valor, o que torna o cartão caro em viagem intercontinental. E quem esteja a preparar terreno para um crédito futuro não retira daqui benefício algum, porque não há financiamento a reportar. Não vale a pena, igualmente, para quem não é cliente do BPI e não pretende abrir conta só para isto: abrir uma conta à ordem para aceder a um pré-pago de 11€ por ano raramente compensa. E quem procure recompensas, cashback ou seguros associados deve olhar noutra direção.

Como pedir

A adesão faz-se por quatro canais, todos eles reservados a quem já é titular de uma conta de depósitos à ordem no Banco BPI: o BPI Net, a BPI App, qualquer balcão BPI ou um Centro BPI Premier. Não é pedido comprovativo de rendimentos nem há análise de risco de crédito, pelo que o processo é essencialmente administrativo.

Se o cartão se destina a um filho ou a outro terceiro com idade superior a 13 anos, é no momento da adesão que se indica o portador, e o cartão é emitido em nome dele. Antes de assinar, vale a pena pedir três coisas por escrito: a confirmação do escalão de comissões aplicável às moedas do EEE que não sejam o euro, a coroa sueca ou o leu romeno; a informação sobre contactless e carteiras digitais, que o banco não publica; e o mecanismo de salvaguarda dos fundos junto da entidade emitente. As condições completas e o formulário estão na página oficial do Cartão BPI Cash no Banco BPI.

Conclusão editorial

O BPI Cash resolve bem um problema específico e resolve-o mal para todos os outros. Como cartão de mesada para um adolescente, é dos poucos produtos no mercado português que o emissor assume abertamente como tal, e a combinação de saldo fechado, ausência de acesso à conta da família e carregamento imediato pela aplicação é genuinamente útil. Sem juros, sem dívida e sem análise de crédito, é também um cartão que não pode correr mal financeiramente.

O que o impede de ser um bom cartão em termos absolutos é o preço do que oferece e a lista do que não diz. Nove euros e meio para emitir, onze por ano para manter, sete e meio para substituir, três para reaver o próprio saldo e dez por ano se o esquecer lá dentro: é muita comissão para um produto que não empresta dinheiro nem devolve nada em recompensas. Junte-se a exigência de conta no BPI, o teto anual de 5.000€ partilhado por todos os cartões pré-pagos do cliente e o silêncio do banco sobre contactless, carteiras digitais e seguros, e fica um produto competente no seu nicho e dispensável fora dele. Fora desse nicho, dificilmente compensa.

Análise atualizada em agosto de 2026 com base no preçário publicado pelo emissor e nas regras do Banco de Portugal para moeda eletrónica.